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quinta-feira, 14 de outubro de 2021
RIOVERDEMS | Por PORTAL RIOVERDE NOTICIAS

Um mês sem Zé Pretim, o maior ícone do blues em Mato Grosso do Sul

 


Na sexta-feira, completa-se um mês que a velha Yamaha SG preta está muda. E que a música de Mato Grosso do Sul ficou mais triste, e bem menos rock ‘n’ roll, com a partida repentina de José Geraldo Rodrigues. 

O cantor e guitarrista de blues mais importante dessas plagas, nascido em 16 de maio de 1954, em Inhapim (MG), chegou por aqui no início dos anos 1970, ainda conhecido como Zé Pretinho, e deixou órfãos muitos admiradores do gênero e de sua arte.

Autodidata, com pinta e pegada de um autêntico bluesman batizado nas águas do Mississipi, Zé Pretim fez parte da geração que turbinou o cenário da música de Campo Grande, ao integrar bandas pioneiras como a Zutrik e a Euphoria. 

Nos anos 1980, partiu em carreira solo, quando apura o seu estilo personalíssimo de executar o blues, aproximando o gênero norte-americano da música caipira.

 

A fama não parou de crescer e, apesar da vida pessoal de altos e baixos, a carreira parecia decolar de uma vez por todas a partir dos anos 2000. Lançou dois discos e, com a participação em programas de tevê de alcance nacional, tornou-se conhecido em todo o País. 

Jô Soares e Raul Gil ficaram vidrados na originalidade do bluesman ao apresentar canções como “Asa Branca” (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira) vertidas para o andamento bluesy sem perder a alma brasileira. Zé Pretim era essa alma.

 

Com sina de andarilho, a faiscar olhos e corações por onde andava, literalmente de norte a sul, Pretim seguiu colocando a sua musicalidade exuberante e afiada a serviço de outros clássicos de apelo regional – a exemplo de “Trem do Pantanal”, com direito a “Trenzinho Caipira” como música incidental, “Chico Mineiro”, etc – e da música negra brasileira (Tim Maia, Cassiano, Djavan, Jorge Ben) e dos EUA (“What a Wonderful World”, “Before Acuse Me”).

Além de verdadeiras pérolas de sua própria autoria, como “Primavera” e “Cantoria Blues”, tema instrumental com o qual costumava abrir os shows.

 

Em 2015, com a ajuda de amigos, principalmente de Luis Avila, seu baixista, esteve internado em uma clínica de reabilitação. 

O músico fez o último show no dia 08 de maio, na Esplanada Ferroviária, pelo projeto Vertentes, e preparava-se para mais uma participação no Bonito Blues & Jazz Festival, em novembro, antes de iniciar as gravações do terceiro álbum.  

A vida foi mais rápida que os projetos e os sonhos de Zé Pretim. Homenagens estão a caminho. Um disco, shows e um documentário estão na agenda. Conheça, a seguir, um pouco mais desse artista extraordinário pelas palavras de quem conviveu com ele e amou sua música e sua contagiante presença.

 

O que eles falam de Zé Pretim?

"O que eu acho mais impressionante na história do Zé, além da sua genialidade musical, é o fato de um garoto negro de família pobre, nascido no meio rural, ter rodado praticamente o Brasil todo com as próprias pernas, do Sul ao Norte, passando pelo Nordeste e pelo Sudeste".

"Durante um bom tempo, viveu praticamente como um nômade musical, sem empresário, sem nada, apenas ele, a guitarra e uma mochila de roupa nas costas. Tocou até nos perigosos garimpos do Pará.", contou.

"A humildade e a força de vontade que ele teve em 2015, para reconhecer que os vícios estavam acabando com a vida dele, foi o que mais me marcou".

"A sabedoria e a humildade de aceitar ser internado em uma clínica, a redescoberta da fé e todo o caminho de superação que ele percorreu até os seus últimos dias. Tudo isso foi uma das histórias mais lindas que eu tive a felicidade de testemunhar nesta vida” finalizou.

 Luis Avila, produtor musical, baixista e principal parceiro de Zé Pretim desde 2009.

 

"Conheci ele pessoalmente duas semanas antes de morrer, durante um ensaio no apê da Ana Cabral. Como fã de blues, eu já conhecia a sua contribuição. A sinceridade dessa fusão com música regional de diferentes regiões, de Luiz Gonzaga a Paulo Simões e Geraldo Rocca, foi como um presente, música com um tempero novo”. 

William Nogueira, guitarrista da banda Blueasy

 

"Lembro-me da primeira vez que o entrevistei: fiquei, ao mesmo tempo, maravilhada e impressionada com tanta criatividade e habilidade em uma pessoa só. E o melhor, embora tivesse nascido em outro estado, era daqui. O Zé Pretim era nosso! Ele ainda tinha muito a mostrar”. Meri Oliveira, cantora e jornalista

 

"O que mais me desperta saudade, além da pessoa bacana que ele era, é a música dele com certeza. Ver aquele cara tocando guitarra e cantando ao mesmo tempo era uma das coisas mais prazerosas que eu tinha na música. Isso vai fazer muita falta”. 

Jerry Espíndola, cantor, compositor; produziu o último show de Zé Pretim

 

"O Zé deixa um legado único, porque ele é um autêntico bluesman pantaneiro, sempre chamei ele dessa forma. Muitas vezes, aqui no Brasil, colocamos uma distância muito grande entre uma coisa que está lá nos EUA e a nossa realidade."

"O Zé foi o cara que diminuiu essa distância. É um trabalho único a ser seguido, é um cara pioneiro nesse sentido de fazer o blues ser brasileiro”.

Adriano Grineberg, pianista 

 

"Vai deixar muita saudade pra nós do Bonito Blues & Jazz Festival, pois participou na primeira edição (2013) como a principal atração e nos anos de 2014, 2015 e 2017 também participou".

"Nesta oitava edição (de 12 a 14 de novembro de 2021), faremos uma homenagem ao Zé Pretim por meio de uma exposição fotográfica, de autoria do Aurélio Vinicius, e uma retrospectiva de sua carreira musical. Ele mostrou às novas gerações que sempre é possível a convivência harmoniosa entre o rural e urbano, o novo e o velho e a interação entre as raças".

Afonso Rodrigues Jr, coordenador do Bonito Blues & Jazz Festival

"Ele foi muito corajoso no final ao enfrentar seus próprios demônios. Ele certamente não teve uma vida fácil. Tive a oportunidade de conhecê-lo mais de perto, apresentando-se nos palcos de Campo Grande nos últimos dez anos, e posso dizer: ele foi um guerreiro e um sobrevivente, vivendo exclusivamente como músico no Brasil e com pouca instrução".

"Felizmente, ele deixou gravações em vídeo. Era um entertainer dos melhores, um gênio, nosso Hendrix do pantanal. Fazia a guitarra cantar junto dele, era visceral e espontâneo. 

"Foram poucas as oportunidades que tive aqui em Campo Grande de ouvir uma música que transcendia tempo e espaço, aquela experiência de você dizer 'me belisca porque eu não estou em Campo Grande'. "

"O que ele fazia ao vivo morreu com ele, pois é simplesmente inimitável. Não é babação de ovo gratuita. Sorte de quem o estiver ouvindo em outras paragens agora." 

Renato Azambuja, advogado e fã

"Meu pai revolucionou o blues e mostrou para o Brasil como é realmente a cultura sul-matogrossense. Eu gostava muito de ver ele sendo aplaudido. Onde ele tocava, as pessoas iam ao delírio. Um toque diferenciado sem igual e uma voz marcante. Vai fazer muita falta. Geraldo Miguel Gomes Rodrigues, filho."

"Eu achava demais essa voz de blueseiro que ele tinha e o fato de ele entoar o meu nome como uma canção de blues. Toda vez que me encontrava, ele falava assim “ô, Jane...!” tipo com aquela voz de blueseiro. Nossa... Eu nunca vou esquecer isso. Conheci o Zé Pretim quando eu era baixista do Sarau do Zé Geraldo"

"Eu tocava todas as quartas-feiras. A primeira coisa que ele fazia era pedir o groove e passar as linhas de baixo. Na hora que eu pegava, ele ficava todo feliz e começava a mandar o som dele em cima. Era muito bom tocar com ele, um músico ótimo, bem exigente com a qualidade musical. Ele falava ‘mais assim, mais assado, não é assim’. Eu pensava ‘ai, meu deus, tenho que correr atrás’.

"O legado que ele deixa, além de um estilo único, o maior bluesman que a gente já teve aqui, é que ele tocou até o fim e foi longe com tudo o que sonhava. E que também existem pessoas sempre para ajudar, como o Luis, que estava sempre junto com ele e deu todo o apoio que ele precisava num momento difícil, resgatou, adotou o Zé Pretim. Toda essa história é tão linda."

Jane Jane, cantora e baixista

 

"Conheci ele no clube Surian nos anos 70. Fizemos um teste e ele entrou na banda Zutrik tocando guitarra. E cantava um monte de música, inclusive do Jimi Hendrix. Ele ficou comigo durante uns dois anos até que uma bela tarde ele chegou e falou ‘Miguel, eu vou-me embora ver outros horizontes’."

"Meu pai, que cuidava das finanças, deu pra ele uma grana boa, o Zé Pretim vazou e o Zutrik continuou."

"Perdi contato por uns dez anos. Quando ele voltou, Campo Grande já estava começando um movimento de blues, e forte, com muitas bandas. Ele conseguiu aprovar um projeto na Fundação para gravar um CD e conseguiu se encaixar bem nesse perfil do blues."

"Tem aquela voz rouca, tocava bem, os arranjos muito bem feitos. Ele ia embora, voltava. Toda vez que ele estava aqui, era eu o Zé Fiúza que tocava bateria com ele. Eramos os dois caras com quem ele tinha mais confiança de tocar. O Luis Avila me chamou uma época para fazer várias shows com ele."

"O arranjo que ele fez pro Trem do Pantanal é excelente. Constatei nesse meio tempo que ele criou um estilo próprio. O blues dele é brasileiro. Pegou os clássicos, adaptou e ficou muito bom. Só tem ele que faz ou fazia isso."

"Ele criou essa identidade, do blues nacional com qualidade e, importante, cantando em português, que nem o Bêbados Habilidosos, com os blues todos em português, o que eu acho difícil."

"Cantar em inglês fica mais fácil para harmonizar a melodia. Fiz uma música em homenagem a ele, mas ele gravou só até metade, foi embora para Cuiabá e perdi contato. Era um cara exigente com a questão de tocar certinho."

"Exigia dos músicos, ensaios e ficava puto quando o cara errava. Não era qualquer um que tocava com ele não. Pena que ele partiu. Vai deixar saudade pela alegria e pelo jeito de ser autenticamente brasileiro. Ele tocava o contrabaixo muito bem também. Cantava bem, um excelente músico."

Miguelito Barrera, baterista

"Sempre sorridente, malemolente, um senhor meio garotão. Esse espírito energizava seu modo de tocar e cantar. Seu blues, seu canto, sua guitarra, suas canções e versões eram ao mesmo tempo potentes e aconchegantes. Como uma boa dose de uísque. Relaxa e incendeia. É isso que me já está me dando mais saudade."

"A música do MS fica órfã de um artista que adorava os elementos da nossa cultura e os homenageava do seu modo peculiar. Ele botava aquele veneno bom na nossa musicalidade e mostrou que o blues é uma linguagem aberta."

"Suas versões fantásticas provam isso. Além disso, por ser um dos poucos artistas de blues negros no Brasil, ele nos fazia lembrar o quanto esse gênero tem conexões com a ancestralidade negra. Ele disse ao Brasil que o blues é música de preto e se casa com qualquer idioma, letra e gênero."

Clayton Sales, baixista da banda Bêbados Habilidosos

"Como é que pode um cara de Mato Grosso do Sul se interessar por blues? Foi a primeira coisa que pensei ao saber do Zé Pretim. A figura dele já parecia a de um cara do delta do Mississipi. Então despertou interesse."

"Fui escutar os arranjos de músicas brasileiras pra blues, inclusive Rio de Lágrimas (conhecida como Rio de Piracicaba), que a gente fez também no Blues Etílicos e achei interessante como ele usava o blues dentro da música regional."

"Quando o Luis me convidou pra esse disco eu fiquei animado porque eu tinha certeza que a gente iria achar uma para dar um trato que tivesse a ver com o blues. Tenho certeza que, com aquela musicalidade, a gente teria feito um belo trabalho."

"Gostaria muito de ter conhecido ele e, mais ainda, de ter criado alguma coisa juntos para ficar marcado na história."

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